Comunidade Evangélica Rocha Viva

O envelhecer e a Soberania de Deus

Por causa de uma grande fome, Noemi abandonou sua terra natal, Belém, e foi viver com seu marido, Elimeleque, e seus filhos, Malon e Quilion, na terra estrangeira de Moabe. O marido morreu e os filhos casaram-se com Orfa e Rute.Após dez anos de convivência ali, seus filhos també m morreram e ela ficou desamparada. Os sonhos de construir um lar em outro lugar transformaram-se em pesadelo. Decidiu então regressar a Belém, mas deu liberdade às suas noras de voltarem para junto de suas famílias, alegando estar velha demais, sem qualquer esperança de um futuro promissor.

 

Orfa voltou para junto de seus pais, Rute, porém, quis permanecer ao lado de Noemi para sempre, aceitando seguir também o Deus de sua sogra.

A chegada de Noemi, cujo nome significa “agradável”, e Rute chocou a cidade. Ela rogou que não lhe chamassem mais de Noemi, mas de Mara:

“Chamai-me Mara, porque o Todo-Poderoso me encheu de amargura. Cheia parti, porém, vazia o Senhor me fez tornar (Rute 1.20,21ª).

Noemi e Rute foram residir na parte do campo que pertencia a Boaz, o qual era da família de Elimeleque. Ela estava idosa demais para trabalhar e dependia unicamente dos cuidados de sua nora para poder ter uma sobrevivência digna. A lei de Moisés estipulava que os grãos caídos da colheita dos segadores deveriam ser deixados para os pobres (Lv 23.22). Rute foi colher estas sobras, Boaz viu aquilo e estendeu a sua mão dando-lhes mais alimentos, mais grãos e proteção.

Passaram-se os dias e os fatos levaram Boaz a casar-se com Rute. Não existem acasos ou coincidências na vida dos filhos de Deus, mas somente a soberania de Deus. Desse casamento nasceu o menino chamado Obede, que foi pai de Jessé, pai de Davi, e desta raiz nasceu Jesus, o Salvador do mundo.

Ao longo da vida, Noemi precisou descer do alto da sua felicidade e cair no vale profundo e sombrio da tristeza. Mas, Deus não a abandonou, abençoando-a com um neto. As mulheres disseram: “Ele será restaurador da tuda vida, e consolador da tua velhice, pois tua nora, que te ama, o deu à luz; ela te é melhor do que sete filhos. E Noemi tomou o menino, pô-lo no seu regaço e foi sua ama” (Rute 4.15,16).

Noemi perdera tudo de bom e julgava que teria uma velhice desgraçada, sem mais qualquer projeto ou possibilidade de realização. Todavia, Deus agiu na vida de Noemi e lhe deu um novo amanhecer.

Segundo Erik e Joan Erikson (1950-1960), o idoso, após os 89 anos, chega a ponto de transcender-se, erguendo-se, superando, indo além do universo e do tempo. Os anciãos podem ficar cansados, exauridos, e até deprimidos. Mas, prontamente, aceitam que o sol se põe à noite e se rejubilam ao vê-lo surgir todas as manhãs. Enquanto há luz, há esperança e quem sabe que luz brilhante e revelação uma manhã pode trazer?

Manhãs de possibilidades no envelhecer

Alguns acham ser errôneo colocar a possibilidade de projetos para os idosos, pois alegam que eles já trabalharam muito pela vida afora. Prefeririam. Talvez, que as pessoas aposentassem a sabedoria quando chegassem à velhice.

Jack Messy (1999), porém, afirma que a “pessoa idosa” não existe como entidade individual, é apenas um termo social que não têm nome, não são como muitos que querem colocar, “objetos” para estudos, pesquisas, etc.; mas sim sujeitos com histórias diferentes de vida, continuam sendo cada vez mais “seres humanos”, que junto aos demais merecem ainda ter oportunidades de realização pessoal, lutando, saindo em busca, reagindo e ao mesmo tempo sendo receptivos, tendo projetos e propostas de vida, sim.

Seria o envelhecer marcado só com perdas? Sinais de desgaste dos corpos, rugas nas faces, voz mais cadenciada, andar mais vagaroso, queda inexorável dos músculos, fragilidade dos movimentos, dependência ... Lentidão mas reações, diminuição da capacidade da memória, cabelos brancos ou calvície, reflexos menos rápidos, compressão da coluna vertebral, enrijecimento?

Marcas do tempo na pessoa idosa...

Tudo isso não se agrava com a partida dos filhos, aposentadoria e inatividade, morte dos pais e parentes, de amigos, do cônjuge, diminuição das capacidades corporais e intelectuais?

Na verdade, não, embora o número de perdas aumente consideravelmente nesta derradeira etapa da vida, realmente, elas se iniciam após o nascimento da pessoa, prosseguindo pela vida afora, como, por exemplo, na queda dos dentes, perda da inocência, saída da casa dos pais , casamento dos filhos, menopausa, etc.

Mesmo que muitos o vejam como algo horrível, sinônimo de diminuição de forças, funções ou vaidade, o envelhecer também se trata de processo de enriquecimento biológico pela descoberta de novas qualidades ou pelo aperfeiçoamento de outras já existentes, como o das qualidades superiores da mente (compreensão, discernimento, razão). Se, por um lado, os idosos ficam limitados em poder aprender coisas novas que dependem e algumas capacidades, por outro, eles têm acesso a outras virtudes. Ganha-se em sabedoria, capacidade para solucionar problemas da vida prática, especialização profissional. Adquire-se ainda a capacidade de aconselhamento e muitas, muitas outras possibilidades desafiam a figura do idoso.

Os idosos devem ser semelhantes a fontes de águas cristalinas, onde amigos, filhos, netos, bisnetos, venham beber e desfrutar de experiências, perseverança, bondade, palavras de fé e compreensão, amor sincero, apoio. Eles podem ser estimulados a ser exemplos para outros idosos de hoje e do amanhã e mentores para os jovens. Quem chegou à etapa da idade avançada, pode ser a cor que irá completar o arco-iris, anota que contribui para aprontar a melodia, uma fruta cintilante que todos desejam colher.

“Na velhice ainda darão frutos, serão viçosos e florescentes” (Sl 92.14). “As mulheres idosas [...} que sejam mestras do bem” (Tt 2.3b).

A qualidade de vida significa novos conceitos que incentivam a que o idoso tenha um projeto de vida, que exerça o seu papel social e perceba que, além das perdas, existem aquisições, renovação, mudanças, realizações.

A versatilidade é a capacidade eu todas as pessoas têm de fazer coisas, criar soluções, encontrar saídas. Essa capacidade não conhece as limitações da idade e depende, em grande parte, do desejo ou da necessidade de trilhar novos caminhos. Não há limites para a criatividade humana e seu desenvolvimento. Todos nós somos capazes dessas proezas, sim, uns mais, outros menos. È só insistir e a criatividade desabrocha. Depois, basta um pouco de treino.

Minayo e Coimbra Jr. afirmam ser a velhice uma “fazenda de colheitas, espaço de movimento e construção, onde continuam a existir não apenas os frutos, mas a semente, o plantar, a alegria dos brotos e todos os prazeres, dores e sofrimentos do ceifar, como em qualquer etapa da vida” (p.13).

É preciso que você desperte para uma vida com mais qualidade, com mais beleza e satisfação. E seu dia pode ter muitas faces e múltiplas cores. Só depende de você!

Pode ser cinza e triste, se nada que você fizer for agradável. Ma também pode ser colorido, acompanhado de muita satisfação e alegria. Isto se você realmente estiver disposto a arregaçar as mangas. Mas, se nada se faz, nada se pode esperar. O tempo de realização está em suas mãos.

Pense, no seu dia e imagine como você quer que ele seja. Como uma grande tela, pinte a sua vida com lápis-de-cor, desenhando nos espaços em branco, afinal sua vida é sua obra. E você é o grande artista responsável por deixá-la mas bela.

Se, na velhice, não existem lembranças de amores e família a evocar a partir de fotografias ou histórias lembradas, pode haver, ao invés, uma profunda dedicação à arte, à literatura ou ao estudo, para compensar essas perdas. Alguns indivíduos dedicam-se prazerosamente e completamente ao seu trabalho, sua profissão e à criatividade.

Você tem vontade de criar alguma coisa, escrever, bordar, pintar, desenhar, fazer uma escultura, transmitindo com isso uma parte de si mesmo, mostrando como sente, pensa e vê?

Manhã com conquistas e sabedoria

“ E o enchi do Espírito de Deus, no tocante à sabedoria, ao entendimento, a ciência e a todo ofício” Êxodo 31.3.

Marialzira Perestrello, médica, psicanalista, escritora, poetisa, após os 80 anos, cursando aulas de filosofia e estudando alemão, afirma: “Em poucas épocas estive tão criativa, ocupada e produzi tanto, como nos últimos anos.

São: conferências, participação em mesas-redondas; artigos para congressos no exterior e no Brasil; resenhas e comentários de trabalhos. Após meus 70 anos, publiquei três livros de psicanálise e três de poemas.Tenho que inventar tempo para coisas mais pragmáticas: reorganizar pastas de meu marido e minhas, sintetizar currículos, diminuir material guardado, rasgando papéis e papéis, com a finalidade de ganhar espaço em um apartamento menor para ode qual mudei”.

Sócrates (mencionado em “A república”, de Platão) afirmou: “Eu gosto de falar com as pessoas mais velhas. Elas já percorreram a estrada da vida na qual nós teremos também de viajar. Eu acho que seria muito melhor para nós aprender com elas como é que é”.

A sabedoria dos idoso é muito especial e deveria ser mais valorizada pela sociedade. Eles têm o mais belo dos diplomas, o da experiência da vida. Portanto, além de passar o que sabem a outras gerações, são capazes de participar do que se poderia chamar “troca de saberes”.

Na meia idade ou maturidade (40 aos 60 anos), a pessoa fica de dois extremos: a geratividade versus a estagnação. Para Erik Erikson, em vez de ficar parado, “os papeis de pai idoso, avô, velho amigo,consultor, conselheiro e mentor, fornecem ao indivíduo as oportunidades sociais essenciais para experimentar grande geratividade nas relações cotidianas, com as pessoas de todas as idades. A capacidade para a grande geratividade incorpora o cuidado pelo presente às preocupações pelo futuro – o futuro das gerações atualmente mais jovens e das gerações que ainda não nasceram e a sobrevivência do mundo como um todo”.

Ao chegar a velhice propriamente dita, a pessoa estará na faze da integridade versus desespero, isto é, ou será um idoso realizado, com fé no coração, feliz consigo mesmo; ou desesperado, com medos, ansiedades, limitações e ausência de esperança.

O desespero estará sempre de Platão querendo derrubar, mas, se o idoso estiver otimizando a sua integridade (senso de coerência e inteireza), alcançará por certo a sabedoria.

Qualidade de vida, direito de todos

Para a Bíblia hebraica, a vida é inseparável do que hoje chamamos de “qualidade de vida”. Não há vida autêntica conforme a vontade de Deus, para sua criatura humana, na pena e na humilhação, na miséria e na solidão, no pecado e na injustiça. Se Jeremias (Jr 20) e Jó (3) chegam a maldizer o fato de terem nascido, não querem com isso rejeitar a vida como tal, mas sua inversão, sua criatura; as condições que lhes são impostas são insuportáveis; eles clamam a Deus em sua miséria e indignação. Pressentem que sua situação é incomparável com o projeto de Deus criador e também com a fidelidade que Deus não se cansa de mostrar aos seus.

Conclusão

“O que podemos fazer para ser prósperos na terra da aflição (“...Deus me Fez crescer na terra da minha aflição”. – Gn 41.52)

“Sejamos agradecidos e não amargos (“Sempre dando graças por tudo ao Deus, o Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo”. – Ef.5.20)

“Oremos sem cessar. Mesmo em meio às lágrimas, a oração é um cântico que o coração entoa a Deus (“Orai sem cessar”. – 1Ts 5.17)

“Estenda a mão a outras pessoas. Conforme as outras pessoas com o conforto que Deus lhe tem dado (“Que nos consola em toda a nossa tribulação, para que também possamos consolar os que estiverem em alguma tribulação, pela consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus”. – 2Co 1.4).

Fonte: Revista Visão 1706

 
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