Comunidade Evangélica Rocha Viva

Exegese de Amós

Amós 2,6-16 A injustiça social e a opressão aos menos favorecidos dentro da comunidade de Israel, o povo de Deus.

 

Introdução

Nosso interesse é fazer um comentário bíblico sobre o Livro do Profeta Amós. O objeto de estudo será o texto 2, 6-16, ainda que sendo uma fração do livro, o texto esclarece e resume aos leitores sobre a situação do povo de Israel naquela época. De como eles haviam se distanciados dos ensinamentos de Javé, praticando a injustiça tanto no âmbito social, político e econômico, oprimindo aos menos favorecidos; quanto no âmbito religioso, afastando o pobre do culto e da verdadeira adoração a Javé. E de como Javé se levanta como Justo Juiz para advogar a causa do oprimido fraco.

 

1)      O texto e sua tradução

2,6Assim disse Javé:

por causa de três crimes de Israel

e de quatro não o farei voltar:

por causa de seu vender por prata o justo,

e o pobre por sandálias:

2,7os que esmagam sobre o pó da terra na cabeça dos fracos,

e o caminho dos oprimidos entortam,

um homem e seu pai vão à jovem,

para que profanasse o nome de minha santidade

2,8e sobre vestes penhoradas se estendem,

ao lado de cada altar.

E vinho de multas bebem

na casa do Deus deles.

Mas, eu exterminei os amorreus diante deles,

que como altura de cedros sua altura,

e forte [é] ele como de carvalhos.

2,9Mas, exterminei seu fruto de cima

e suas raízes de baixo.

2,10E eu vos fizera subir da terra do Egito, e vos fizera andar no deserto, quarenta anos.

2,11E fiz levantar de vossos filhos para profetas,

e de vossa juventude para nasireus.

De fato, não foi assim, filhos de Israel?

Dito de Javé.

2,12Mas, fizeste beber aos nasireus vinho,

e sobre os profetas ordenastes, dizendo: “não profetizeis”!

2,13Eis que eu [sou] o que está fazendo sulcos debaixo de vós,

Como faz sulcos a carroça, nela cheia de feixes.

2,14E perder-se-á o refúgio do ágil,

e ao forte não fortalecerá sua força.

e o valente não salvará sua vida,

2,15e o que maneja o arco não permanecerá,

e o ágil em seus pés não escapará,

e o que conduz o cavalo não salvará sua vida,

2,16e o forte de seu coração entre os valentes nu fugirá!

Dito de Javé.[1]

 

2)      Observações gerais sobre delimitação

No livro de Amós, foram registradas as palavras do Profeta Amós, criador de ovelhas em Tecoa, que fala a respeito do juízo que viria a Israel.

      Vemos o que antecede nosso objeto de estudo é o julgamento de Javé dos povos vizinhos de Israel por causa de suas transgressões. E em seguida ao nosso texto temos as testemunhas contra o Israel e seu julgamento.

 

3)      Observações gerais sobre a forma do texto

 

Fórmula do mensageiro - Assim disse Javé ......................................................................... v.6a

Justificativa do castigo (2 justificativas) .............................................................................. v.6b

Denúncia sócio-religiosa .................................................................................................. v.7 e 8

Retrospectiva teológica, a ação de Deus em benefício do povo .................................... v.9 - 11

Rejeição aos enviados de Javé ............................................................................................. v.12

Apresentação do autor das ações ....................................................................................... v.13

Sentença e castigo ..................................................................................................... v.14 – 16a

Fórmula do mensageiro .................................................................................................... v.16b

 

4)      Assunto de Data, Lugar, Autoria

Não é possível afirmar que quem escreveu o livro seja o profeta Amós. Pois nestas comunidades os profetas não sabiam escrever nem ler. As falas dos profetas eram registradas posteriormente de acordo com a memória deles.

Mas sobre o profeta, os textos revelam alguns aspectos, como por exemplo: ele nasceu em Tecoa, era camponês, ocupava-se com a criação de gado e plantação de frutas (1:1 ; 7:14).

Amós atuou por volta de 760 a.c, no norte[2]. Nos dias de Uzias, rei de Judá, e nos dias de Jeroboão, rei de Israel (1:1).

5)      Assunto de Interpretação

O texto se inicia com uma fórmula do mensageiro “Assim diz Javé” (2,6), vemos isso em outros profetas contemporâneos de Amós como Oséias (Os 1,1) e Miquéias (Mq 1,1). A narrativa revela uma sociedade mercantil, com forte atividade comercial (2,6). O profeta inicia seu discurso justificando o castigo de Israel baseado em seus crimes contra os pobres.

O abuso de poder no âmbito social e religioso eram as denúncias principais do Profeta. Os pobres eram socialmente, os camponeses empobrecidos que já não são mais totalmente livres, devido provavelmente, a transações comerciais, muitas das vezes ilícitas e eram escravizados por dívidas. Eles têm suas terras, mas de tão pobres e frágeis que se tornaram, estão quase expulsos delas.[3]

Estes pobres eram marginalizados, sofriam inúmeras injustiças, eram oprimidos sob um domínio esmagador e não tinham como se defenderem sozinhos (2,7).

A prática da injustiça era estendida no âmbito religioso, a liderança do templo também exercia opressão sobre os pobres, tirando vantagem dos desafortunados. Os pobres não tinham como oferecer sacrifícios no templo, assim penhoravam suas vestes, as mesmas que serviam de cobertos e abrigo à noite (2,8). Os sacerdotes enriqueciam com as ofertas levadas ao templo, enquanto os pobres passam fome e frio, enquanto as mulheres são violentadas pela elite (2,7). Assim a liderança não somente se beneficiava dos sacrifícios, como também afastavam o povo da verdadeira adoração a Javé.

A voz do profeta proclama a indignação de Javé contra cada aspecto básico da vida política, social, econômica e religiosa de Israel.

Em Am 2.8-9 Javé se apresenta através do profeta como aquele que fez grandes coisas em favor de Israel, eles mesmos haviam sido testemunhas das maravilhas realizadas por Ele. Como no episódio da travessia do Jordão (Js 5.1), e em seguida da destruição dos amorreus, que eram um povo forte e duro como carvalho, com guerreiros de grande estatura como os cedros estabelecidos nas principais montanhas do sul de Canaã. Mas que Javé havia exterminado, levado a destruição (2,8-9).

Em seguida, Javé relembra a experiência da aliança que fez com Israel, os tirando da opressão e do jugo do Egito, e os tornando uma nação que seria dirigida por Ele (Ex 15.22, 16.1, 19.2).

Menciona também a rejeição de Israel com relação aos Profetas que Javé levantara para exortar o povo, e o qual eles matavam e impediam de falar, rejeitando seus conselhos (Jr 23).

                        Em Am 2.13, Javé se apresenta agora como aquele que ia ferir a Israel, da mesma forma que a carroça fere a superfície que passa, fazendo uma cavidade na terra (2,13).

            Javé dá sua sentença (Am 2.14-16a), Israel iria ser privado do abrigo e da proteção dEle, e por conseqüência perderia mobilidade e rapidez de movimentos. Perderia seu poder, influência, ânimo, ninguém conseguiria salvar sua vida, nem sequer aqueles que parecem ter maior capacidade para resistir ou fugir.

            Vemos através do profeta Amós, que Javé exige prestação de contas do seu povo por causa do pecado. O poder e a prosperidade que Israel ainda possuía, deixavam-nos acomodados. Pois se consideravam privilegiados, como povo escolhido dEle (2,14).

            Mas Israel recebe uma lembrança das responsabilidades, já esquecidas há algum tempo, que os privilégios incluíam (2,10-11).

            Agora Javé seria o Justo Juiz, que estava pronto para bater o martelo, e seu impacto destruiria tanto o altar quanto o palácio. Mais do que isso estava em jogo a continuação da aliança, que teve seu início no período patriarcal, seu amor poderoso demonstrado no êxodo, sua estrutura específica revelada a Moisés (2,13-16).

Algumas questões para terminar refletindo:

Quais são os gritos hoje dos oprimidos e dos menos favorecidos?

Como nossas comunidades agem diante da injustiça social e dessa opressão?

            Estamos marginalizando aqueles que são menos favorecidos que nós, e que estão à nossa volta?

            Temos firme e ávido em nossa memória, os privilégios e as responsabilidades que temos enquanto povo que se diz chamado por Deus?

 

 

 

POR:

Elisângela Barreto

 

 

Bibliografia consultada:

SCHWANTES, Milton, Breve História de Israel, São Paulo, Oikos, 2008

HUBBARD, David Allan, Amós - Introdução e Comentário, São Paulo, Vida Nova

 



[1] Tradução do hebraico para o português: Prof. Dr. Milton Schwantes.

[2] David Allan Hubbard, Amós Introdução e Comentário, São Paulo, Vida Nova, 2007

[3] Milton Schwantes, Breve História de Israel, São Paulo, Oikos, 2008

 
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