Comunidade Evangélica Rocha Viva

Paulo um Pregador Versátil

No livro de Atos dos apóstolos vemos que Lucas descreve as diversas vezes em que os apóstolos se voltavam para discursar quanto a sua convicção.

  Por Simone Cabral                

 A flexibilidade da Pregação de Paulo

  

 E todos eles têm como base, como pilares de sustentação de seu discurso a morte e ressurreição de Cristo.

Podemos então concluir que fosse para judeu, fosse para gentio a base da pregação no livro de Atos era sobre o Filho de Deus que viveu sobre a terra, foi morto e ressurreto ao terceiro dia.

Mas apesar desse ponto em comum nas pregações do livro de Atos, temos apresentadas por Lucas diversas facetas dos apóstolos ao expressarem essa verdade. Muitas foram às ocasiões em que eles falaram e diversos foram os ouvintes atingidos. E dentro desse contexto temos maravilhosas demonstrações de adaptação e flexibilidade na pregação do evangelho.

O maior expoente desse ministério sem dúvida alguma foi Paulo, o apostolo dos gentios. Ele era de uma versatilidade admirável, pois tanto pregava para judeus, para pagãos iletrados, como pregava para filósofos gregos.

Dentro dessa capacidade de Paulo, nos sentimos tentados a comparar os seus discursos, a analisar as diferentes vertentes de sua exposição e aprender com ele quanto à pregação do evangelho, que não era limitada ao povo judeu.

A proposta deste artigo é fazer uma comparação entre o discurso de Paulo para os judeus cultos, na sinagoga de Antioquia da Psídia, o discurso a pagãos iletrados em Listra, e o discurso em Atenas para filósofos epicureus, no Areópago.

Para isso iremos abordar as principais características dos três discursos, apontando o local, público alvo, o tema, a base da argumentação e o objetivo que Paulo queria alcançar .

No primeiro discurso que vamos analisar, temos Paulo em Antioquia da Psídia, numa sinagoga, num dia de Sábado sendo convidado a falar, isto está descrito em Atos 13:16-52.

O sábado para o judeu era o dia sagrado, o dia dedicado ao Senhor ao estudo de sua Palavra, portanto Paulo dirigiria seu discurso essencialmente para judeus, apesar de na sinagoga estarem alguns que eram gentios, mas que temiam a Deus.

Ele então começa com a frase: “Varões israelitas e vós outros que temem a Deus”, e dá seqüência ao seu sermão trazendo a tona um breve relato sobre a memória de Israel, recapitulando eventos onde a maravilhosa providência de Deus tinha estado ativa, em toda a historia daquele povo.

Paulo então traça uma linha do tempo, levando todos aqueles judeus a enxergarem a promessa de salvação que havia nas Escrituras, e trazendo-os para o contexto atual, onde aquelas promessas haviam se cumprido em Jesus Cristo. R. N. Champlim diz a respeito disto:

“O apostolo começou seu discurso mencionando a escravidão aos egípcios, e como os israelitas foram livrados da mesma... o quanto a providencia e o grande poder de Deus, exercidos tão freqüentemente a favor deles.... Ele destaca o fato  de  como Cristo,  segundo fora  prometido  no    Antigo Testamento , de fato já havia sido enviado. Esse Cristo foi Jesus de Nazaré, o qual fora cruelmente tratado e crucificado a instancias do povo judaico. Todavia fora ressuscitado pelo poder de Deus. Ora, ambos os esses elementos cumpriram profecias fidedignas do Antigo Testamento. Assim sendo, aqueles que cressem no Antigo Testamento , em suas narrativas sobre muitas intervenções divinas e nas suas promessas messiânicas, as quais encerraram as maiores de todas as intervenções divinas, certamente seriam conduzidos à fé em Jesus Cristo.” 1

Paulo faz então um paralelo entre a historia de Israel e a historia de Jesus, começando em João Batista e culminando com a morte e ressurreição.

E para que seu argumento fosse ainda mais forte ele faz questão de citar que “por muitos dias, foi visto por aqueles que tinham ido com ele da Galileia para Jerusalém”(1:21:22). 

Paulo então saí da exposição histórica e parte para a exposição teológica  dizendo:  “quero que saibam que mediante Jesus lhes é proclamado o perdão dos pecados. Por meio dele, todo aquele que crê é justificado de todas as coisas das quais não podiam ser justificados pela lei de Moisés”(13:39-40). Ele oferece uma escolha e como afirma Stott:

 “a escolha é brutal. De um lado, existe a promessa de remissão de pecados por intermédio deste, ou seja, de Jesus crucificado e ressurreto . Pois por meio dele todo o que crê é justificado, ou seja, declarado justo diante de Deus. Através da lei de Moisés não há justificação para ninguém, já que todos nós violamos a lei e a lei condena os que violam a lei.” 2

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1-       Champlin, R.N – Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo, Vol.3 – pág. 267

2 -    Stott, John R. W. – A Mensagem de Atos – Série a Biblia Fala Hoje – pág. 252

 

 

Paulo então encerra seu discurso com uma advertência para aqueles que rejeitassem essa mensagem de salvação e perdão dos pecados, citando o profeta, Habacuque (13:40 - 41), que como ele havia sido usado para alertar o povo. Champlim diz que:

“Devemos notar como, por todo o seu sermão Paulo apela para as diversas passagens das Escrituras como provas de seus argumentos. Neste versículo ele apela a fim de mostrar que até mesmo a rejeição da mensagem que viera por meio do Messias, por parte de Israel, bem como a rejeição de sua pessoa, haviam sido preditas em profecia bíblica... Porquanto ele já havia encontrado muitos desprezadores de Cristo, de sua mensagem e de seus servos... O apostolo dificilmente poderia ter escolhido uma profecia mais conveniente e mais historicamente apropriada  para com ele encerrar a sua mensagem.” 3

O objetivo do apostolo era desafiar, como já citado acima, os judeus daquela sinagoga a refletirem sobre a sua historia e sobre toda a profecia contida no Antigo Testamento e confronta-la com o advento de Cristo, morto e ressurreto.

Paulo utiliza-se dos mesmos elementos do sermão de Pedro, no dia de Pentecostes, como base para seu discurso, pois tanto um como outro estavam se reportando a judeus, que tinham conhecimento das Escrituras. Pedro utilizara do mesmo recurso na historia de Israel e no cumprimento de promessas divinas, para que aquelas pessoas reunidas no cenáculo percebessem que aquilo que haviam visto era o cumprimento das Escrituras. John Stott afirmou que:

“A estrutura também é praticamente idêntica ao sermão de Pedro no dia de Pentecostes, no qual detectamos os acontecimentos do evangelho (a cruz e a ressurreição), as testemunhas do evangelho ( os profetas do Antigo Testamento e os apóstolos do Novo Testamento), as promessas do evangelho ( a nova vida e a salvação em Cristo, através do Espirito)  e as  condições do evangelho (arrependimento e fé).” 4

Paulo valeu-se neste episódio de toda a cultura judaica que havia adquirido durante toda sua vida. Ele sabia como era a mente do judeu, como eram os seus costumes e como deveriam ser confrontados em relação ao Messias.

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3-     Champlin, R.N – Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo, Vol.3 – pág. 280

4 -    Stott, John R. W. – A Mensagem de Atos – Série a Bíblia Fala Hoje – pág. 253

 

 

Temos então uma amostra da pregação de Paulo dirigida a judeus cultos que compararemos com dois discursos dirigidos a pagãos. Num primeiro momento a pagãos iletrados em Listra e no segundo á pagãos cultos, os filósofos de Atenas.

Diferente de Antioquia da Psidia, que era de um centro comercial e avançado, Listra era uma cidade atrasada, com a maioria de sua população analfabeta, com um comercio pouco desenvolvido, sendo sua manutenção essencialmente agrícola.

A pregação nesta cidade era nas esquinas, nos mercados, enfim, em qualquer lugar onde houvesse a aglomeração de pessoas. Os moradores de Listra eram dedicados a servir o templo de Jupter e Mercurio (Zeus e Hermes), pois havia uma grande lenda na cidade que envolvia esses deuses.

Pela cura de um aleijado Paulo e Barnabé, seu companheiro de viajem, foram confundidos com deuses gregos, e a população em língua licaônica clamava pelos missionários. Quando Paulo se deu conta do que estava acontecendo começou seu maravilhoso e marcante discurso a um povo pagão.

“Apesar de Lucas incluir apenas um resumo muito curto do sermão de Paulo, ele é muito mais importante por ser o único registro de um discurso dirigido a pagãos iletrados.”5

Vejam o contexto desse discurso como difere do sermão de Antioquia, lá tratava-se de uma sinagoga, aqui tudo acontece na rua, em Antioquia Paulo fala para judeus cultos, conhecedores da Palavra, aqui Paulo fala para licaonicos analfabetos e ignorantes que a única expressão de divindade que conheciam era Jupter e Mercúrio.

Paulo, como já citado, aqui não podia referir-se a Cristo como cumprimento de promessas feitas aos antepassados, pois aquelas pessoas não entenderiam, então ai entra em cena o espirito criativo e versátil de Paulo, que não se limita a pregar somente para cultos, mas consegue levar sua mensagem evangelistica para os mais diferentes povos, nos mais diferentes níveis culturais.

Notemos que aquela sociedade era agrícola e nada mais familiar para eles do que os fenômenos da natureza e Paulo sabe disso e então para fazer referencia a esse Deus ao qual ele queria anunciar ele faz uso de tais fenômenos. Ele começa dizendo: “se afastem dessas coisas vãs e voltem para o Deus vivo, que fez o céu, a terra e o mar e tudo o que neles há.”

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5 -    Stott, John R. W. – A Mensagem de Atos – Série a Bíblia Fala Hoje – pág. 259

 

 

Enquanto em Antioquia ao falar com judeus ele se referia ao passado, falando das intervenções divinas no povo de Israel, aqui em Listra ele refere-se ao passado de forma mais abrangente: “No passado Ele (Deus) permitiu que todas as nações seguissem seus próprios caminhos. Contudo Deus não ficou sem testemunho: mostrou sua bondade dando-lhes chuva do céu e colheita no tempo certo”, como afirma Stott:

“O contexto que ele pregou aos judeus de Antioquia foi o Antigo Testamento, sua historia, suas profecias e sua lei. Mas com os pagãos, Paulo não se concentrou em uma escritura que eles conheciam, mas no mundo natural ao redor, que eles conheciam e podiam ver.” 6

e Champlim:

“Quando Paulo se dirigia a judeus, costumava utilizar-se da historia judaica e essas referenciam a sua própria historia sem dúvida lhe eram significativas. Mas quando ele dirigia a palavra a pagãos puros, falava de assuntos que lhes eram significativos, atacando, sobretudo a idolatria... Nessas oportunidades, geralmente apelava mais para a natureza do que para as Escrituras sagradas.” 7

É notável a habilidade de Paulo em perceber o contexto cultural daquelas pessoas e enviar a elas uma mensagem que lhes fosse compreensível. Apesar de neste fragmento Lucas não ter citado que Paulo tivesse pregado diretamente a Cristo morto e ressurreto, podemos deduzir que isso tenha acontecido em algum momento de sua permanência  nessa cidade, pois lá fora fundada uma igreja. A respeito disso Champlim diz:

“O sermão feito por Paulo... não chegou a menção do Senhor Jesus... mas não se há de duvidar, que em ocasião mais oportuna, Paulo deve ter chegado a esse ponto da mensagem cristã.”8

Paulo valeu-se da mesma base de argumentação para falar aos filósofos gregos em Atenas. Sendo essa cidade o centro cultural do mundo, estavam ali as mentes mais brilhantes de sua época. Mas apesar de toda a cultura, assim como em Listra o povo era idolatra, cultuavam a vários deuses e ao seu próprio conhecimento.

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6-     Stott, John R. W. – A Mensagem de Atos – Série a Bíblia Fala Hoje – pág. 259

7-     Champlin, R.N – Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo, Vol.3 – pág. 294

8-     Champlin, R.N – Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo, Vol.3 – pág. 295

 

 

Paulo em Atenas, no seu discurso no Areópago não se dirigiu ao povo comum da cidade, mas tinha como ouvintes os intelectuais da época, os guardiões da religião da moral e da educação. Ele sabia no que era fundamentada tanto a filosofia dos epicureus quando as dos estóicos, e valeu-se disso para juntar em seu discurso elementos além de naturais também filosóficos.

Enquanto em Listra ele restringiu-se aos temas da natureza para mostrar Deus, em Atenas “esses temas foram desenvolvidos com maior amplitude”.9

 Paulo usou de algumas idéias filosóficas e citou poetas conhecidos por aqueles eruditos, pois “visto ser aquela cidade o centro da erudição grega; essas referencias seriam facilmente compreendidas pelos seus ouvintes.” 9

Assim como em Listra Paulo utiliza como centro de sua pregação do Deus Criador, mais intensifica ao coloca-lo também na posição de Senhor, Mantenedor, Governador, Pai dos humanos e Juiz.

Notemos que enquanto em Listra Paulo detém-se na benevolência deste Deus, que apesar de ter criado um homem que seguiu seus próprios caminhos, ainda enviava a estes a condição de manutenção da vida, em Atenas ele parte da mesma base, mas caminha para o desafio das crenças daqueles filósofos.

Ao apontar Deus Criador ele contradiz o panteísmo dos estóicos e a combinação de átomos aleatoriamente dos epicureus. Ao dizer que Deus era o mantenedor da viva, ele subjuga a crença de “domesticação dos deuses” feitos pelos gregos. Em afirmar que Deus era o Pai dos humanos ele confronta todo o pensamento idolatra dos gregos. E finalmente ao colocar Deus como juiz, Paulo desafia os estóicos que criam num tipo de julgamento de natureza continua e os epicureus que nem sequer aceitavam a idéia de um julgamento divino, pois não criam na vida após-túmulo.

“Mui apropriadamente essas verdades foram proferidas no Areópago, a sede mesma do julgamento...e quão diferentes em todos os aspectos, de qualquer conceito pagão, é o julgamento divino aqui anunciado”10, diz Champlim

Paulo então completa sua exposição quanto ao julgamento introduzindo o discurso de morte e ressurreição de Cristo.

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9-     Champlin, R.N – Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo, Vol.3 – pág. 294

10-   Champlin, R.N – Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo, Vol.3 – pág. 380

 

 

A pregação de Paulo era rica e dinâmica, ele não deixava o cerne da mensagem cristã, morte e ressurreição, mas apresentava uma flexibilidade de abordagem surpreendente. Ele tinha plena convicção de seus alvos e objetivos, e para alcança-los desdobrava-se como ele mesmo disse em I Cor.9:19ss, “ Porque sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos, a fim de ganhar o maior numero possível. Procedi, para com os judeus, como judeu...Aos sem lei, como se eu mesmo fosse...Fiz-me de fraco para com os fracos...Fiz-me tudo para com todos...Tudo faço por causa do evangelho...”

Mas depois de ver tudo isso, de toda essa sagacidade evangelistica de Paulo, de perceber, mesmo que num fragmento de sermão como o de Listra, que ele era capaz de discursar para qualquer ouvinte a pergunta que ecoa em nós é “ Onde está esta versatilidade em nossos dias?”.

É comum hoje termos pregadores, anunciadores do evangelho que ”se  especializam” em uma determinada classe de pessoas e são incapazes de mover-se, moldar-se a outros tipos. O seu discurso é , engessado e de alcance limitado.

Espero com esse artigo que através do estudo das Escrituras e da unção do Espírito Santo, possamos buscar em Paulo a inspiração para uma pregação mais eficaz, deixando de lado um discurso exclusivista.

Que Deus nos abençoe nesta tarefa !  

 

 

 

 
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